Não podemos mais sermos reféns de um sistema que nos amarga a cada dia, nem tampouco nos sentir impotentes aos vislumbrarmos a tendencia da espécie humana que jamais reconhecerá o seu egoísmo, que alimenta em si, o seu instinto predatório no velho costume ferruginoso de tudo consumir.
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| Imagem: IAArtistics |
A fonte do nosso egoísmo vem do propósito natural de cada um ao querer se tornar autossuficiente, como se tivéssemos conquistado o auto-patrimônio e fóssemos capazes de por nós mesmos, mudar as coisas, e nessa ilusão, alimentamos a crença de que podemos moldar o mundo ao nosso gosto, quando na verdade, estamos destruindo a harmonia do ambiente, pelo nosso artificialismo.
Somos chamados a permanecermos atentos a esses nosso vício, que age em nós como parte do nosso DNA, provinda da marca do pecado de Adão, sucedido de Caim, cuja raiz do nome traz o verbo "ter", por isso, fomos concebidos no pecado, como nos diz a Palavra em Davi:
3.Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa bondade.
E conforme a imensidade de vossa misericórdia, apagai a minha iniquidade.
4.Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado.
5.Eu reconheço a minha iniquidade, diante de mim está sempre o meu pecado.
6.Só contra vós pequei, o que é mau fiz diante de vós.
Vossa sentença assim se manifesta justa, e reto o vosso julgamento.
7.Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado [Salmo 50 (51), 3-7).
A cura desse vício é o propósito da nossa caminhada para que possamos formar uma nova consciência em nós, como um antídoto a nos curar da praga que infestou a nossa raíz, tendo como alimento, a seiva provinda da nossa união com Deus, da nossa aliança de amizade:
18"Não relembreis coisas passadas,
não olheis para fatos antigos.
19Eis que eu farei coisas novas,
e que já estão surgindo:
acaso não as reconheceis? (Isaías 43, 18-19 - Liturgia Missal - 5º Domingo da Quaresma - Ano C - Ímpar - 06 abr. 2025).
Formar essa nova consciência é despir-se do sentimento do "podemos ter" e resignarmos no "ser":
Concebe por isso, um profundo sentimento do teu nada, e faze-o crescer constantemente em teu coração apesar do orgulho que domina em ti. Intimamente, persuade-se de que não há no mundo coisa mais vã e ridícula que o desejo de ser estimado por alguns dotes da gratuita liberalidade do Criador, pois como diz o Apóstolo: 7Vejamos: em que você é mais do que os outros? O que é que você possui que não tenha recebido? 8Vocês já estão ricos e satisfeitos e se sentem reis sem nós! Tomara mesmo que se tivessem tornado reis; assim nós também poderíamos reinar com vocês! (1Coríntios 4,7-8) (PAPA LEÃO XIII, 2022, p. 24-25).
É um vício tão impregnante, como o piche que agarra, e nos imobiliza, ao ponto de nos fazer acreditar que estamos livre dele, quando na verdade, estamos apenas maquiando a nossa postura, por exemplo, quando dizemos que "Deus nos ajuda, mas precisamos fazer a nossa parte", isto não é uma verdade, porque quando nos unimos a Deus, somos um e não dois:
19Tomando a palavra, Jesus disse aos judeus:
"Em verdade, em verdade vos digo,
o Filho não pode fazer nada por si mesmo;
ele faz apenas o que vê o Pai fazer.
O que o Pai faz,
o Filho o faz também.
20O Pai ama o Filho
e lhe mostra tudo o que ele mesmo faz.
E lhe mostrará obras maiores ainda,
de modo que ficareis admirados" (João 5,19-20 - Liturgia Missal - 4ª Semana da Quaresma - Ano C - Ímpar - 02 abr. 2025).
Assim, o grande amargo que surge em nossa língua, quando tentamos vencer nosso vício, é aquela sensação que nasce em nós quando temos de nos fazer dependente de Deus, porque a sensação que nos dá é que estamos perdendo tudo o que construímos, nos tornando pobre, sem percebermos que é ai, que construímos o verdadeiro tesouro de bens e Espírito:
Irmãos:
8Na verdade, considero tudo como perda
diante da vantagem suprema
que consiste em conhecer a Cristo Jesus, meu Senhor.
Por causa dele eu perdi tudo.
Considero tudo como lixo,
para ganhar Cristo e ser encontrado unido a ele,
9não com minha justiça provindo da Lei,
mas com a justiça por meio da fé em Cristo,
a justiça que vem de Deus, na base da fé.
10Esta consiste em conhecer a Cristo,
experimentar a força da sua ressurreição,
ficar em comunhão com os seus sofrimentos,
tornando-me semelhante a ele na sua morte,
11para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos.
12Não que já tenha recebido tudo isso,
ou que já seja perfeito.
Mas corro para alcançá-lo,
visto que já fui alcançado por Cristo Jesus.
13Irmãos, eu não julgo já tê-lo alcançado.
Uma coisa, porém, eu faço:
esquecendo o que fica para trás,
eu me lanço para o que está na frente.
14Corro direto para a meta,
rumo ao prêmio,
que, do alto, Deu (Filipenses3, 8-14 - Liturgia Missal - 5º Domingo da Quaresma - Ano C - Ímpar - 06 abr. 2025).
Se perdemos o medo e confirmamos o pacto da Aliança com Deus, nos tornamos com Deus, um só, e a sua Sabedoria orienta todas as nossas ações cujo resultado é a bênção que traz os frutos do nosso sustento material e espiritual:
Isto diz o Senhor:
"Eu atendo teus pedidos com favores
e te ajudo na obra de salvação;
preservei-te para seres elo de aliança entre os povos,
para restaurar a terra,
para distribuir a herança dispersa;
9para dizer aos que estão presos: 'Saí!'
e aos que estão nas trevas: 'Mostrai-vos'.
E todos se alimentam pelas estradas
e até nas colinas estéreis se abastecem;
10não sentem fome nem sede,
não os castiga nem o calor nem o sol,
porque o seu protetor toma conta deles
e os conduz às fontes d'água.
11Farei de todos os montes uma estrada
e os meus caminhos serão nivelados.
12Eis que estão vindo de longe,
uns chegam do Norte e do lado do mar,
e outros, da terra de Sinim.
13Louvai, ó céus, alegra-te, terra;
montanhas, fazei ressoar o louvor,
porque o Senhor consola o seu povo
e se compadece dos pobres.
14Disse Sião: 'O Senhor abandonou-me,
o Senhor esqueceu-se de mim!'
15Acaso pode a mulher esquecer-se do filho pequeno,
a ponto de não ter pena do fruto de seu ventre?
Se ela se esquecer, eu, porém, não me esquecerei de ti" (Isaías 49, 8-15 - Liturgia Missal - 4ª Semana da Quaresma - Ano C - Ímpar - 02 abr. 2025).
Portanto, ao renunciarmos o nosso vício, de justificar nossos atos pela lei que é vazia e injusta, nos libertamos ao destruir as canaletas que usávamos para aliviar nossa consciência, quando dizíamos nos tempos antigos, que seguimos o compliance, como refletido por nós na liturgia do 4º Domingo, e assim, livres, olhamos para nós mesmos recebendo e sentindo a misericórdia, a compaixão de Deus no seu infinito amor que respondeu ao nosso clamor abba Pai, e alimentando-nos dela, também, compartilhamos a misericórdia:
Colocando-a no meio deles,
4disseram a Jesus:
"Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério.
5Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres.
Que dizes tu?"
6Perguntavam isso para experimentar Jesus
e para terem motivo de o acusar.
Mas Jesus, inclinando-se,
começou a escrever com o dedo no chão.
7Como persistissem em interrogá-lo,
Jesus ergueu-se e disse:
"Quem dentre vós não tiver pecado,
seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra".
8E tornando a inclinar-se,
continuou a escrever no chão.
9E eles, ouvindo o que Jesus falou,
foram saindo um a um,
a começar pelos mais velhos;
e Jesus ficou sozinho,
com a mulher que estava lá, no meio do povo (João 8,2-9 - Liturgia Missal - 5º Domingo da Quaresma - Ano C - Ímpar - 06 abr. 2025).
Conclusão:
Quando compartilhamos a misericórdia, não é porque nos tornamos bons, porque só Deus é bom, mas porque sentimos uma forte união com Deus, que imergido de uma profunda gratidão pelo bem que Ele nos fez, pela nossa pobreza, nós também partilhamos pela nossa gratidão, todos os bens que possuímos, porque já vivemos a certeza que Ele nos supre de todas as nossas necessidades, porque ainda que seguimos algumas vezes por caminhos errantes, a sua misericórdia sempre estará com cada um de nós, como nos fala The Pretenders, I'll stand by you:
Referências:
PAPA LEÃO XIII. A prática da humilade: e outros escritos santos. 3ª Ed., São Paulo: Cultor de Livros, 2022.

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