Esta semana, visitando as veredas digitais de Caetano Veloso, por estas vias, nos deparamos com uma pergunta que ele fez para seus seguidores, nós inclusive, muito inspiradora: "No que você tem fé?"
Não foi a toa que Djavam transformou o Caetano, pronome pessoal, para o Caetano verbo, nos ensinando a caetanear o que há de bom, por sincronizarmos no curso de nossas vidas, o alto nível da sensibilidade do dom da Arte da música, que Caetano nos presenteia.
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| Foto: Anvel |
Um dom, que lhe é peculiar, cujas músicas têm o poder de sempre se tornarem um pedacinho da carne do nossos corações, a trazer alento ao longo de nossas caminhadas esfoladoras e esfoliantes, quanto tomamos o sopapo na cara do fraco, e vem nos fortalecer, gerando em nós a alegria do verdadeiro ra ra ra, derradeiro rara ra,
não me impede de cantar ra ra ra ra, tô no pé de onde dera ra ra raa (VELOSO, 1989).
E dentro desse dom inspirador, fomos também inspirados com a pergunta que Caetano nos fez: "No que você tem fé?"
Trata-se de uma pergunta muito difícil de se responder, seja pelo homem comum, seja pelos clérigos, no entanto, como vivemos aqui em nossa caminhada pelo Tempo do Espírito, e, a Palavra é Viva, Deus nos escuta, por isso, somos presenteados na Oitava do Natal pela Luz do alto, a Estrela de Belém, que vem nos dar a resposta para a pergunta "No que você tem fé?"
A importância da resposta da pergunta no contexto da Oitava de Natal, é para nos ajudar, como uma bússola, apontar o caminho que cada um de nós, deve seguir nestes tempos.
Para isso, é como se a resposta da primeira, estivesse também respondendo uma segunda pergunta, aquela mesma pergunta que fizeram os peixes que fugiram do aquário do dentista, na Arte de "Procurando Nemo" (PETERSON e REYNOLDS, 2003), quando, na cena ao final do filme, ao conseguirem fugir do aquário, caíram, presos dentro de sacos com água, individualizados, e com um nó nas pontas, sobre uma ponte, e peguntaram: "E agora..., o que fazemos?"
I - A resposta para "No que você tem fé?"
Portanto, como a Estrela de Belém, apresentou um Norte para os Reis Sábios, para nós também aqui é apresentada, comparando o homem velho que éramos em relação ao homem banhado pela Água do Espírito.
Para compreendermos a Fé, se faz necessário primeiro compreendermos o sentido das palavras Graça e Fé, porque a Fé não é um dom que nasce em nós, um dom pessoal que posso aumentar, diminuir ou escolher tê-la, porque ela nos é agraciada para que ninguém se encha de orgulho, como se fosse por exemplo o maior inventor do mundo, sob a ilusão de ser capaz de controlar o próprio Deus, como nos ensina a Sabedoria:
1Vocês estavam mortos por causa das faltas e pecados que cometiam. 2Outrora vocês viviam nessas faltas e pecados, seguindo o modo de pensar deste mundo, seguindo o príncipe do poder do ar, o espírito que agora age nos homens desobedientes.3Antigamente também nós andávamos como eles, submetidos aos desejos da carne, obedecendo aos caprichos do instinto e da imaginação; como os outros, éramos, por natureza, merecedores da ira de Deus.
4Mas Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, 5deu-nos a vida juntamente com Cristo, quando estávamos mortos por causa de nossas faltas. Vocês foram salvos pela graça! 6Na pessoa de Jesus Cristo, Deus nos ressuscitou e nos fez sentar no céu. 7Assim, com sua bondade para conosco em Jesus Cristo, ele quis mostrar para os tempos futuros a incomparável riqueza da sua graça.
8De fato, vocês foram salvos pela graça, por meio da fé; e isso não vem de vocês, mas é dom de Deus. 9Isso não vem das obras, para que ninguém se encha de orgulho.10Porque foi Deus quem nos fez, e em Jesus Cristo fomos criados para as boas obras que Deus já havia preparado, a fim de que nos ocupássemos com elas (Ef 2,1-8 - Liturgia Missal - 29ª Semana do Tempo Comum - Ano B - Par - 21 out. 2024).
Diante da Sabedoria, o ponteiro da bússola, cujo nome é Graça, já nos aponta para um relação sincera, em que nós, como seres vivos, sendo absolutamente frágeis, não conseguiremos conservar nossa vida se não tivermos um sustento, uma fonte de energia, um alimento a nutrir a carne, e diante de nossa miséria, olhamos para o alto suplicando, com Santa Teresa de Jesus, fundadora com São João da Cruz, da Congregação dos Carmelitas Descalços: Senhor, dá-nos a sua Graça, e me basta.
E, pela inocência da fé, como nos ensina Santa Terezinha do Menino Jesus, discípula de Santa Tereza, ela vêm na singeleza do perfume do coração sem malícia, sem dúvida, que nos faz lembrar a homilia que ouvimos, há uns 40 anos, do Vigário Pe. Armindo Antonio Kunz, scj, que alinhando com a Leitura daquele domingo, comentou a notícia que tinha visto na TV, uma hora antes da missa.
Falou-nos, de um acrobata que atravessou, sobre uma corda, um percurso entre um arranha-céu e outro, na cidade de Nova York, carregando seu filho de 4 anos nos braços.
E quando chegou ao final, todos os repórteres correram para entrevistar, não o acrobata, mas, a criança, cuja primeira pergunta feita pelos repórteres foi: "você não ficou com medo?" E a resposta da sinceridade do coração da criança foi: "não... meu pai me segurou..." diante dos olhos incrédulos dos repórteres.
Todos nós somos dotados dessa singeleza, claro que, na medida em que as nossas moleiras, ou, fontanelas, vão se endurecendo com a idade, passamos a desprezar a nossa inocência, sentimos muitas vezes até vergonha por ainda conservar algo como ela, ou, ainda, quando não sentimos até mesmo revolta, transformando a paz da moleira, em moringa quente.
Mas, essa singeleza tem a propriedade de nos conservar na amizade com Deus, ao ponto Dele não mais nos chamar de escravos, mas de amigos, e nesta mesma amizade somos agraciados, recebemos o dom da Fé, porque temos algo, material, objetivo, vivo diante de nós, como o amor verdadeiro do pai, ou da mãe, pelo filho, mas, que não conseguimos ver com os olhos, precisamos da Fé, porque não é possível apresentá-lo fisicamente.
Assim, pela amizade, Deus então se torna íntimo de nós, e, nós, como Santa Terezinha do Menino Jesus, passamos a ter uma intimidade com o Menino Jesus:
A figura deste mundo passa, as sombras declinam, em breve estaremos em nossa terra natal, em breve as alegrias de nossa infância, as noitadas de domingo, as conversas íntimas, tudo isso nos será dado para sempre e sem usura. Jesus nos retribuirá as alegrias das quais Ele nos privou por um instante (LIMA, 2004, p. 7).
Ele então, passa a nos contar segredos que só permanecem ao redor dos amigos, nisso vivemos a Fé, pois, acreditamos em um amigo que não podemos ver fisicamente, pois, se isso fosse possível, morreríamos, pela desprezível miséria que somos, diante da imensidão santa do Criador.
4Vós sois meus amigos,
se fizerdes o que eu vos mando.
15Já não vos chamo servos,
pois o servo não sabe o que faz o seu senhor.
Eu vos chamo amigos,
porque vos dei a conhecer
tudo o que ouvi de meu Pai.
16Não fostes vós que me escolhestes,
mas fui eu que vos escolhi
e vos designei para irdes e para que produzais fruto
e o vosso fruto permaneça (Jo 15,4.15-16 - Liturgia Missal - 6º Domingo da Páscoa - Ano B - Ano Par - 05 mai. 2024)
Um dos segredos a nós revelados nestes dias, é o de que a terra natal referida por Santa Terezinha, não é o Éter, não é algo abstrato, ou mesmo, uma sociedade celestes do tipo, o Olimpo como se o nosso futuro seria unirmos aos deuses gregos, mas, a própria Terra do início em que recebeu o nome de Éden, como jardim de Deus, e agora recebe o nome de Nova Terra, em que a Justiça é plena, como podemos perceber na Leitura do Apocalipse, que quer dizer revelação, quando diz:
Eu, João,
1vi uma porta aberta no céu, e a voz que antes eu tinha ouvido falar-me como trombeta, disse:
"Sobe até aqui, para que eu te mostre as coisas
que devem acontecer depois destas".
2Imediatamente, o Espírito tomou conta de mim.
Havia no céu um trono
e, no trono, alguém sentado.
3Aquele que estava sentado
parecia uma pedra de jaspe e cornalina;
um arco-íris envolvia o trono
com reflexos de esmeralda.
4Ao redor do trono
havia outros vinte e quatro tronos;
neles estavam sentados vinte e quatro anciãos,
todos eles vestidos de branco
e com coroas de ouro nas cabeças.. (Ap. 4,1-4 - Liturgia da 33ª Semana do Tempo Comum - Ano B - Par - 20 nov. 2024)
Vemos no versículo 2, que há um trono, e que alguém está sentado, isso quer dizer que o lugar tem trono, e, é dotado da força da gravidade que lhes possibilita sentarem, como é aqui na Terra, pois se fosse o Éter, tudo era disforme e de vácuo flutuante, assim como nos versículo 4, em que há 24 tronos e 24, anciãos, também sentados e vestidos, no Éter seria tudo escuro, e disforme, não precisariam de vestimentas, e, ainda, com coroas.
Isso nos ajuda a vislumbrar a certeza de que as noitadas de domingo na terra natal prevista por Santa Terezinha, é a mesma nossa, na Nova Terra, sem mais a tristeza que o Menino Jesus nos privou por alguns instantes. E, tudo isso, foi um segredinho do nosso Amigo revelado a nós, e que agora revelamos aos amigos, que também conservam amizade com Ele.
II -- A resposta para a segunda pergunta: "E agora..., o que fazemos?"
Esta pergunta é colocada aqui no contexto da grande confusão que vivemos nestes tempos em que estamos em transição de Era, emigrando da falida Era Antropoceno, e, como aqueles peixinhos do aquário de "Procurando Nemo", atônitos, perguntamos no final desta Era falida: e agora.... o que fazemos?
Até hoje vivemos um caminho que parecia estar totalmente sob o nosso controle, mas agora, somos forçados a concordar que tudo se descontrolou, o mundo nos parece um pandemônio, porque o meio-ambiente está descontrolado, a economia está descontrolada, não há mais empregos como antes, não há mais estudos como antes, não há mais carnavais como antes, não há mais músicas como antes, as igrejas não são como antes, e, se abusar, as festas não são como antes, a justiça não é como antes, os políticos não são como antes, até a violência, os assaltos, não são como antes, tudo virou uma farofa que nos causa uma certa indigestão.
E se deparamos agora, com uma proposta de amizade feita pelo próprio Deus, a cada um de nós, surpreendidos ficamos como que congelados, como se perguntassemos, sem entender bem o propósito, mas o que Ele está querendo de mim?
E, se estamos nos minutos finais deste salto, e estamos, porque a escolha para a vida ou para a morte, será inevitável, e, em muito breve, e, se pensarmos sobre o momento de nossa morte, que pode ser agora, é brevíssimo, então perguntaremos: "e agora.... o que fazemos?"
Poderemos abrir os nossos olhos, e, naquele flash final, compreenderemos que nossa fé nos salvou, ou, já não há mais tempo, e nesta segunda hipótese, o Pai que nos ama, como Bom Conselheiro nos diz: "e haverá choro e ranger de dentes".
Para você não correr o risco da incerteza, o primeiro passo é manter a tua inocência, na vontade de viver, isso significa, ter fé de que você foi incluído no registro de nascimento dos filhos, e tem um Pai que te ama de verdade, e que cuida de cada um de nós, e também, garantirá a vida de cada um de seus filhos.
Depois, o passo seguinte é resgatar o amor filial de pai, ou, de mãe que também foi pai, que existe em você.
A partir desta fé, você encandecerá o amor que te ligará à Deus, como honra por acolhê-lo como Pai, sob a Graça da Fé a lhe prometer a certeza da vida:
e confirma, sobre eles, a autoridade da mãe.
4Quem honra o seu pai,
alcança o perdão dos pecados;
evita cometê-los
e será ouvido na oração quotidiana.
5Quem respeita a sua mãe
é como alguém que ajunta tesouros.
6Quem honra o seu pai,
terá alegria com seus próprios filhos;
e, no dia em que orar, será atendido.
7Quem respeita o seu pai, terá vida longa,
e quem obedece ao pai é o consolo da sua mãe.
14Meu filho, ampara o teu pai na velhice
e não lhe causes desgosto enquanto ele vive.
15Mesmo que ele esteja perdendo a lucidez,
procura ser compreensivo para com ele;
não o humilhes, em nenhum dos dias de sua vida,
a caridade feita a teu pai não será esquecida,
16mas servirá para reparar os teus pecados
17a e, na justiça, será para tua edificação (Eclo 3,3-7.14-17 - Liturgia Missal - Oitava do Natal - Celebração da Sagrada Família - Ano C - Ímpar - 29 dez. 2024).
Nesta singeleza, você despertará o Espírito da Amizade que alimenta a Aliança entre Deus e os homens, e, quem sabe, Ele concede-te a Graça de reconhecê-lo sem vê-lo, isto é, mediante a Fé, como nos lembra o Menino Jesus, quando os seus pais, perderam a inocência e esquentaram a moringa:
41 Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém,
para a festa da Páscoa.
42 Quando ele completou doze anos,
subiram para a festa, como de costume.
43 Passados os dias da Páscoa, começaram a viagem de volta,
mas o menino Jesus ficou em Jerusalém,
sem que seus pais o notassem.
44 Pensando que ele estivesse na caravana,
caminharam um dia inteiro.
Depois começaram a procurá-lo
entre os parentes e conhecidos.
45 Não o tendo encontrado,
voltaram para Jerusalém à sua procura.
46 Três dias depois, o encontraram no Templo.
Estava sentado no meio dos mestres,
escutando e fazendo perguntas.
47 Todos os que ouviam o menino estavam maravilhados
com sua inteligência e suas respostas.
48 Ao vê-lo, seus pais ficaram muito admirados
e sua mãe lhe disse:
"Meu filho, por que agiste assim conosco?
Olha que teu pai e eu estávamos, angustiados,
à tua procura."
49 Jesus respondeu:
"Por que me procuráveis?
Não sabeis que devo estar na casa de meu Pai?"
50 Eles, porém, não compreenderam
as palavras que lhes dissera (Lc 2,41-50 - Liturgia Missal - Oitava do Natal - Celebração da Sagrada Família - Ano C - Ímpar - 29 dez. 2024).
Conclusão
Se nós percebemos que tudo hoje nos parece novo, e que temos de reaprender tudo, é porque nós estamos navegando nas ondas da tsunami que move os destroços da Era Antropoceno, e talvez, sobrevivendo dentro de um saco plástico com as pontas amarradas, olhando para os outros amigos do lado, iguais a nós, perguntando: "E a agora... o que fazemos?" a resposta é Eu tenho de manter a inocência, isto é, entregar-me sem medo, no mergulho no abismo na certeza pela fé, que há um Novo Mundo ao meu lado a me esperar.
Mas, para ter esta Fé, que é como um combustível, uma moeda valorizadíssima na hora das calamidades, pela sua raridade, você precisa gerar ela em você, restabelecendo a sua amizade com a Sagrada Família, lembrando das coisas que nossos pais acertaram e revivê-las hoje, como uma oferta a Deus para honrá-los, e então se revestirá da certeza de que o teu Pai te segurou, por isso, não precisará mais ter medo, a exemplo do filho do acrobata "meu pai me segurou".
Se compreendermos isso, saberemos fugir da malícia e da astúcia, permanecendo na inocência que nos liga a Deus, porque Ele que conhece todos os corações, nos ensinará o que fazer para não sofremos danos pela maldade dos homens, e assim, nas noitadas de domingo da Nova Terra, cantaremos os verbos caetaneiros chamados na roda, por Carlinhos Brown:
São dim, dom, dão São Bento, grande homem de movimento,nunca foi um marginal, sumiu na praça a tempoCaminhando contra o vento sobre a prata capital.
Referências:
LIMA Pe. Antonio Lúcio da Silva. 30 dias com Santa Terezinha do Menino Jesus. 2ª Edição, São Paulo: Paulus, 2004.
PETENSON Bob, e REYNOLDS, Davi. Procurando Nemo - Finding Nemo - PIXAR - Disney, 2003.
VELOSO, Caetano. Álbum Estrangeiro - Pollygran/Phillips, 1989. Disponível em https://youtu.be/MtmrFsOW130, Acesso em 24 dez. 2024.

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